Wish | Porto.




















Quando um dos nossos restaurantes preferidos é (literalmente) levado pelo mar, sabemos que essa água-tempestade levou também uma parte de nós, do nosso património de memórias. Foi assim que senti, quando no início de 2014 o mar (me) levou o Shis. Para todos os efeitos e depois de ter percebido que nada tinha restado do que outrora havia sido um dos sítios mais bonitos do Porto, a ideia de que havia memórias que não seriam renovadas. Teriam de pertencer ao lugar especial que em nós guarda tudo o que gostamos (muito) de viver. Mas o tempo é uma invenção fabulosa. Faz com que as pessoas curem as feridas, com que se reinventem e com que voltem a jogo, mesmo que tenham pensado que tudo estava perdido. 
Foi assim com as pessoas-alma do Shis. Mudou-se o sítio, porque a Natureza é uma força poderosa que inspira respeito e mudou-se o nome, para afastar más energias e dar uma volta ao karma. Agora, o Shis chama-se Wish e fica no Largo da Igreja da Foz. Essas duas coisas mudaram, mas a comida maravilhosa que fez com que tantas vezes tivesse ido ao Shis continua no Wish.
As imagens são de dias diferentes, mas a cronologia da comida conta a história das minhas saudades. Na primeira vez que fui ao Wish, creio que quis confirmar que tudo continuava tal como nas minhas memórias. Por isso, fiz a sequência de que tinha tanta nostalgia e que julgava irrecuperável. A sopa de algas e de tofu, o risotto de cogumelos, as tempuras, os carpaccios, o exotismo dos temperos e o sushi. Uma das coisas muito boas do Wish é podermos deambular por muitas geografias através da comida. E em tempos tão estranhos e tão frenéticos como os que estamos a viver, é bom pensar em todas as pequenas coisas que nos lembram que as geografias podem ser uma harmonia maravilhosa e fazer com que tentemos perceber um lugar, as pessoas de um lugar, através da comida. Naquela comida, estamos em Itália um bocadinho, a seguir vamos num instante à América do Sul, depois ao Japão. E podemos terminar em França, com um bolo morno de caramelo, que é uma daquelas coisas boas de viver. Era este o sabor mais imediato, quando sentia saudades do lugar que tinha sido levado pelo mar. O bolo morno de caramelo que eu pensei que seria só uma nostalgia. Como as memórias de alguém que sabemos que não vamos rever. Tinha saudades, sabia que não havia igual àquele e que eu também não conseguiria (ou não quereria) replicar e ficava assim. 
A propósito de aspectos exteriores, o Wish não tem o mar. Dificilmente um restaurante podia estar tão próximo do mar como estava o Shis. Mas correu mal, essa proximidade. Ainda assim, e apesar de não ser esse o dado que me é mais importante num restaurante, o Wish é muito bonito e muito acolhedor. As salas amplas e claras, os espelhos, os chapéus, os sofás confortáveis, as mesas brancas e o âmbar quente de que gosto tanto. Quase que não se sente falta do mar que arrasou com o Shis. 
Neste post, a referência ao lugar onde soube que a comida do Shis estava a acontecer num sítio chamado Wish. Foi aqui. E nem estive com desconfianças nem com hesitações. Em primeiro lugar, porque também nesse blog havia (muita) nostalgia do outro sítio em cima do mar. E depois, porque a crítica gastronómica, neste sítio, é no espírito que eu respeito. Vão aos sítios que querem e não porque os convidaram. Ninguém os conhece e, por isso, não têm tratamento especial. E, muito importante, pagam a conta no final. Li há uns tempos que a crítica gastronómica estava cada vez mais longe de ser levada a sério. E o ponto era muito básico: os meios de comunicação social não têm dinheiro para financiar críticos que possam ir aos sítios documentar a experiência de uma maneira imparcial, livre, séria. E isso é lamentável, mas também não devia ser desculpa para que estejamos sempre a ser confrontados com textos de gente que vive no universo faz de conta dos almoços grátis e que depois quer chamar a isso crítica ou o que for. Chama-se outra coisa, mas não é crítica gastronómica. É outra coisa qualquer. E claro que não, que não há almoços grátis. Nem jantares. Nem hotéis. A conta paga-se de uma maneira diferente. E são as pessoas que lêem as pessoas dos almoços grátis que a pagam. Não interessa caucionar coisas dessas. Por isso, obrigada ao (bom) espírito das duas pessoas do Casal Mistério, que pelos vistos, também tinham muitas saudades do bolo de caramelo do Shis. 
E impossível não deixar coisas random com o meu amor pelo Porto dentro. O vermelho de um banco de jardim no Campo Alegre e o esplendor da luz, na relva. A persistência do verde, mesmo numa parede cinzenta. Um gatinho pequenino e uma frase daquelas em que se repara, mas em que não se adivinha o sentido. As flores de um dos meus vestidos. E esta frase recente, numa parede por onde passo tantas e tantas vezes. Abrandei e guardei-a, que daqui a uns dias já não deve estar lá. E é mesmo assim: o amor é mesmo uma coisa de/para corajosos. E, ainda que aquelas palavras desapareçam ou que outras sejam pintadas por cima, estão aqui. Bom assim. 

E esta música. Mesmo que eu não concorde com o título. É ao contrário: o tempo anda/passa rápido. Mas a música é linda :) 


6 comentários:

  1. repito: é tão bom ler-te e viajar contigo. O wish é um dos meus sítios de eleição, pena não ter sido no dia em que lá estiveste. mil beijos, Minha linda Mar canela.

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    1. Repito: és uma pessoa linda :) E tão bom que gostes do Wish. Alguma coisa me dizia que sim. Um dia destes coincidimos, que eu sei que havemos de nos conhecer.

      Mil beijos para ti também, minha querida Vanessa.

      Mar

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  2. Boa tarde Mar.
    Talvez não se lembre de mim, mas há alguns anos atrás vinha sempre aqui ao seu cantinho. Embora nunca o tenha esquecido, ouso até dizer que me lembrei dele muitas e muitas vezes (com muito carinho e saudade), a vida deu tantas voltas que me foi pouco possível vir aqui nos últimos tempos.
    Recentemente,quando os astros se alinharam para que pudesse ter acesso à Internet de uma forma mais facilitada, vir aqui foi uma prioridade. Tenho bastante para pôr em dia, mas ler alguns posts já me fez sentir em casa, de coração quentinho e apaziguado. Fez-me muita falta Mar.
    Estou feliz por voltar a estar aqui.
    Muitos beijinhos.

    Sandra (que já 'não é' dos livros 'nem' de um Portugal diário, mas sempre com ambos a correr-me nas veias)

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    1. Olá Sandra,

      Claro que me lembro de si. Nunca me esqueço das pessoas. Perguntava-me se estaria bem e preocupava-me. Faz parte. Por isso, é tão bom voltar a saber de si. E sim, a vida dá imensas voltas e troca-nos os sentidos numas quantas.
      Também estou muito feliz por ter voltado aqui e por esse seu coração quentinho. E espero que esteja bem. Onde quer que esteja.

      Muito carinho para si, querida Sandra dos livros. Um beijinho grande*

      Mar

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  3. Achar que o Casal Mistério é imparcial, é uma grande tontice da sua parte. Até é agenciado o blog. Tanta ingenuidade.

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    1. Creio que não percebeu o meu ponto quanto à imparcialidade, mas vou explicar com calma, para ver se desta vez entende.

      São imparciais na medida em que ninguém sabe quem são nem quando vão aos restaurantes. São imparciais porque pagam a conta. São imparciais porque vão pelo caminho da crítica gastronómica e não dizem só bem.

      Se a sua questão tem que ver com o facto de ganharem dinheiro com o blog ou se lhe causa indignação serem agenciados, a mim, isso não me faz confusão alguma. Seja como for, circunscrevi-me ao que interessava para este post, que era dizer que respeito aquele espírito e que acho uma desonestidade enorme todos os que se põem a jeito para lhes pagarem uma refeição ou uma estadia num hotel. Está a ver como não sou assim tão ingénua nem tão tonta?

      Não sou tonta nem parva e gosto muito de preservar uma certa ingenuidade, porque adoro acreditar nas coisas, nas pessoas, em mim. Se me engano ou se corre mal, lido com isso. E sabe uma coisa? Antes ser ingénua, do que atirar pedras e esconder a mão.

      A ver se numa próxima vez, assina por baixo do que escreve, sim?

      Espero que (me) tenha percebido.

      Um bom fim-de-semana!

      Mar

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